quinta-feira, 19 de julho de 2007

Esta aconteceu...

Rua 7 de Setembro, em plena tarde. Casal de repórteres (?) entrevista o povo na rua. Escolhido um popular-simplório, este não sabe responder a pergunta, que era sobre a Prefeitura. O casalzinho não teve dúvidas: "quem sabe isto, quem sabe aquilo...". Isto é que é entrevista, que depois sai naquelas carinhas 3 x 4...

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Para refletir...

Por Jorge Olímpio Bento
Reforma, metamorfose e desmemoriação
A BOLA, 12.07.2007
Lisboa

Decidi ser pós-moderno e neoliberal. Ora isto implica não ter passado, esquecê-lo e recusá-lo. Não existem, portanto, nunca existiram, a casa pobre onde nasci, a aldeia ignota donde vim, o país de fome e miséria, opressão e escuridão em que cresci, a dura escola das letras e da vida que frequentei, os princípios e valores em que me criei, os ideais que acalentei, as lutas em que participei, as conquistas que testemunhei, os progressos de que beneficiei, o contexto cívico e ético em que me formei, a Universidade à qual me entreguei.
Sou reforma e metamorfose. Fica para trás, desmentido e desfeito, tudo o que acumulei, defendi e pratiquei ao longo dos anos. Tudo passou e está fora de moda: os ensinamentos dos livros, a história e a filosofia, a memória e a esperança, o direito e a política, as diferenças ideológicas e programáticas dos partidos, as convicções e utopias, os gritos de revolta e liberdade, as canções românticas. Estou a deitar tudo fora.
Tudo isso me apouca, aprisiona, incomoda e persegue. É um espelho de imagens que me desafia e agride a consciência e faz a vida difícil. Exige coerência, persistência, esforço e empenhamento e torna-me cúmplice da injustiça à solta. Eu não suporto isso. Quero mudar de rumo, não ter face nem identidade; embarcar na onda do deleite, do oportunismo, cinzentismo e comodismo. Trocar o apego à firmeza e defesa da verdade pela adesão à fluidez das conveniências. Quero estar do lado donde sopram os ventos e não encarar o monte de lembranças inquietantes e de compromissos assumidos nesta caminhada longa e grisalha. Uma a uma, quero apagar as imagens dos sítios por onde andei, as missões e causas que abracei. Não tenho espaço para tanto arquivo. Detesto o Outono e Inverno; quero viver sempre entre a Primavera e o Verão.
Também quero esquecer a cidade, as praças e casas, até porque já não existem de facto, demolidas que foram para dar lugar a bancos e outros templos do mercado e finança. Vou riscar da memória os cinemas, cafés, teatros, igrejas, clubes, campos de jogos e demais centros de convívio e tertúlia e, no seu lugar, registar as construções, estruturas e entidades que hoje esbravejam para povoar todo o espaço que nos separa do céu e para impor deuses superiores aos que foram meus.
Não retenho nada da infância; arranco molduras penduradas na parede do tempo. Não são mais quadros merecedores do meu apreço. Olho para trás e entranha-se em mim a sensação de estranheza em relação ao emaranhado de sentimentos que me levavam a pensar nos outros e a conter a indiferença, o individualismo e egoísmo. Morra o bem público e viva o interesse privado!
Agora que nenhum edifício resta na memória, eu não sei dizer o que sou e se existo, já que não me consigo ver a mim próprio. Só sei que não vou voltar para a casa antiga. Não quero saber de quem lá vivia e de como vai viver para além dela. Não quero saber que lá vivi, nem de quem não tem e nunca terá casa. Quero apenas evitar que as ruínas resistam ao meu projeto de desmemoriamento e teimem em avivar este sentimento de vazio ruim, o único que fica de todos os que ferem a minha carne e se atravessam no caminho de me libertar do passado.
Para o serviço da conversão ficar bem feito, reduzirei a cinza e nada toda a reminiscência que possa roubar tempo à decisão de me entregar, de modo acelerado, vistoso e confesso, à novidade e à criação da minha descomprometida condição de pós-moderno e neoliberal.
De professor passei a facilitador; não há mais lições para dar. Pertenço, de corpo inteiro, a esta sociedade incapaz de tudo, inclusive de notar as diferenças. Doravante a minha memória está limpa do que me ligava ao passado. De resto o que não se passou não pode ser passado; o que não sucedeu não pode ser lembrança. Sou expressão da desmemoriação. Oiçam bem: recuso, renego e abjuro o passado. Todo eu sou eterno presente, sobrevivo no limbo das inovações e adaptações permanentes. Desta forma reciclado, estou apto a subir no aparelho de Estado – ou noutro qualquer – e a aceder ao exercício das mais altas funções. Se assim o quiser a divina ou outra providência, eu vou longe.
Claro que carreguei nas tintas; mas exagerar é uma maneira de alertar.

Engraçadinho, né?

Grass Potter, da lataPor Haroldo Ceravolo Sereza
De propósito ou involuntariamente, o nome do famoso mago mirim de J.K. Rowling guarda referências à maconha
Harry Potter, agora no quinto episódio cinematográfico e perto do seu sétimo e derradeiro livro, não teve seu nome traduzido para o português, um padrão seguido pelos mais gabaritados profissionais do mercado nos dias de hoje. Mas nem sempre foi assim: Carlos Drummond de Andrade, que além de poeta e cronista, verteu para o português obras em prosa, chamou de Teresa a heroína francesa de um romance relançado há alguns anos com o nome de “Thérèse Desqueyroux”, de François Mauriac, prêmio Nobel de Literatura.
Se a tradutora Lia Wyler seguisse o padrão antigo, um dos nomes que Harry poderia receber talvez viesse a causar constrangimentos para seus editores: Haroldinho Maconheiro é uma versão possível, já sugerido por um escritor muito popular entre as crianças, num debate público na Academia Brasileira de Letras, na época do lançamento do segundo livro da série no Brasil. Isso porque “pot” é maconha em inglês. “Potter”, com a terminação “er”, pode ser entendido, com uma certa malícia, entre outras possibilidades, como “maconheiro”.
E, assim, Potter não seria uma referência ingênua aos vizinhos de infância de J.K. Rowling, como costuma narrar a própria autora nas raras, mas disputadas entrevistas que dá. Embora o termo “marijuana”, proveniente do espanhol, seja o mais utilizado, especialmente nos Estados Unidos, “pot” aparece, com esse sentido, por exemplo, no popular dicionário “Michaelis Português-Inglês”.
Tudo bem, mas acho que vocês estão exagerando, pensa o leitor. Sim, estamos, mas não somos os únicos nessa viagem. Em 19 de agosto de 2000, Mirna Feitoza, da “Folha de S. Paulo”, “pescou” uma outra associação à maconha nos originais de Rowling. No Brasil, os “muggles”, as pessoas normais -contadores, bancários, médicos, livreiros, entre tantas outras profissões-, foram chamadas de “trouxas”. “Muggle”, segundo Feitoza, é uma outra gíria para maconha. Sua principal fonte: “The Oxford Dictionary of Modern Slang” (um dicionário de gírias), que conta a “trajetória” do termo: a primeira “aparição” é de 1926, no plural, significando “marijuana”; em 1969, ele ganha um “esse”, e passa a ser usada para indicar um cigarro de maconha.
Outra fonte é o “Webster's Third New International Dictionary”, que remete a uma outra palavra que, por sua vez, também significa cigarro de maconha. Feitoza elogia a escolha da palavra trouxa, mas, por sua vez, não nota que a tradutora pode ter até feito a mesma associação que J.K. Rowling, pois “trouxa” é uma palavra que, no dia-a-dia das delegacias e das páginas policiais dos jornais, costuma ser associada a uma pequena quantidade de maconha.
Claro que esta é uma leitura bastante livre do livro. Mais do que isso, é enviesada -e, com um pequeno esforço, qualquer um pode transformá-la numa leitura paranóica. Basta ignorar a importância que o duplo (ou múltiplo) sentido tem para a literatura e acrescentar frases feitas do tipo: “É esse tipo de porcaria que nossas crianças estão lendo”; “os pais deveriam ter cuidado com o que os filhos lêem”, “não estou contra a liberdade, mas acho que um livro para crianças...” etc.
Além disso, “potter” tem acepções muito mais óbvias, com associações mais instantâneas. “Potter”, ensina o dicionário, deve ser, como substantivo, traduzido antes por “oleiro” (fazedor de potes de argila) e por “enlatador de conservas”.
O que, novamente, tem sua graça, dessa vez só em português: nos anos 1980, a carga de um navio foi lançada ao mar, no Rio de Janeiro. Eram muitas latas de conserva -só que elas não tinham ervilhas ou atum- estavam, na verdade, cheias de... maconha. Correu o boato de que ela produzia efeitos em seus usuários não obtidos com as vendidas nos morros cariocas -o que rendeu uma nova gíria em português: “Essa é da lata” passou a significar “pot” de excelente qualidade.