sexta-feira, 7 de setembro de 2007

UM CONTO DE EDUARDO MINSSEN

ROBÉLIO DA MUFUNFA


“Todas as tardes que caem nuas,
Eu sinto vontade de te beijar.
Olhando as tardes que caem nuas,
Vejo que eu,
Caio junto...”

Estes versos foram escritos por Jeremy Irons, ou Robélio da Mufunfa, para os íntimos de Engenho Grande.
Escolado na capital, malandro de gorjeios interioranos, ele plastificava os pastéis de dona Maria, dia sim outro também, com a tradicional gomalina que caia dos seus cabelos.
“Gente que se preza...”, dizia ele, “tem codinome de gringo!”
O epíteto de Robélio da Mufunfa foi parido por uma de suas vítimas preferidas, mal chegado ele da cidade grande. “Robélio era o seu nome: o dinheiro, agiota filho da puta, sua razão de viver!”, gritava Vasconcelos de Dodô, envenenado pelo desprezo da amada, agora com os bolsos vazios que lhe restaram.
Mas a grana de uma tia solteirona – “uma finíssima professora normalista”, como todos o sabiam – acabou. E Robélio, inútil na arte de gerenciar as suas patacas, transformou-se em Jeremy Irons, falseando versos para qualquer rabo de saia que lhe passasse pelo caminho.
Foi então que deu-se uma semeadura de discórdias e surras homéricas, pois o sujeitinho não era dado a respeitar nem as menininhas do Madre Cândida, muito menos as casadas alegres e dadivosas da tradicional família do Engenho.
Dente a mais, dente a menos, o latrinesco e falso gringo do interior do brasilzão mais varonil, continuava a ter seus encantos. Bom de prosa, coração frouxo, violão afinado, não havia como se negar. Se todos o odiassem da mesma forma que o invejavam, a quizila da pororoca jamais seria resolvida. Se fosse no tempo da ditadura, a mesma que consumiu com o seu pai, poder-se-ia dizer: “Robélio: ame-o ou deixe-o!”.
Pois ele, todos os dias, batia à porta da redação-casa de Carlão da Jurupemba, o editor da Folha do Engenho, o semanário mais porreta daquele sertão. “Não dá, seu Robélio, Não tenho mais espaço para os seus versos!”
E lá então ia ele bater ponto fiel à dona Maria, na birosca da curva da Rua Hermenelau Gomes, onde tudo o que poderia acontecer, acontecia. O velho médico, agora placa da principal artéria da cidade, um prodígio de humanidades, foi quem tirou Robélio do ventre ferido de dona Cotinha, que morreu dois dias depois. Seu Athanásio foi-se embora da cidade com o rebento e a empregada a tiracolo, deixando o sobradinho para o único filho habitar muitos anos depois, mal sabia ele.
“Nasci no Engenho, de parto de luto e aqui vou morrer...”, dizia ele, lacrimoso. “Não importa que não me entendam, que um nordestino de sangue irlandês não possa expressar todo o seu amor pelas mulheres, pela vida. Morra eu de faca de corno infeliz, ou bala de pai enciumado, aqui é o meu lugar...”
E dona Maria meio que o adotou, enxotando com a vassoura de piassava, dando giras ao ar, quem o molestasse. ‘É o meu guri, meu moleque brejeiro, e no fundo não faz mal a ninguém”, repetia sempre.
Mas naquela sexta-feira, a garoa fina, que empapara o seu terno puído de linho, algo tão raro de se ver naqueles brejos, veio molhar uma manhã inesperada.
Robélio cortou caminho e não foi ao Carlão se lamentar e se oferecer. Sentou na mesma mesa carcomida pelo esquecimento do mundo, na velha cadeira de palhinha desfiada, moldada por sua bunda.
“Não, minha Maria querida, hoje eu não quero pastel. Vou morrer, e assim o caixão vai pesar menos!”
A velha taberneira alterou a sobrancelha e Menelau das Vaquinhas, grande produtor de leite do Alto da Sucupira, com doze tetos que lhe sustentavam a vida, virou o pingado escaldante:
“Quié isto, seu Robélio? Hoje é sem pastel e rumo ao Santíssimo?”
“Sim. Hoje acordei como se meu fim estivesse tão próximo que eu lhe pudesse escutar, como muriçoca atrevida que entra na orelha da gente.”
“Credo em cruz, pára de dizer besteira, menino! Queres um pão fresquinho?”, desviou a dona do bar.
“Carece não, minha mãezinha. Já disse que o caixão fica mais levinho...”
Entrou e saiu gente sem parar do Bar Batimão, nome criativo oferecido pelo próprio, quando a dona ficou viúva e deu-se conta que Bar do Moreira não ficava de todo bem..
Carlinhos, como de costume, apontou o jogo. Antinesca Maria, flor de viúva, passou sem que Robélio – ou Jeremy? – lhe alcançasse sequer uma nesga de olhar. Nem a caderneta, num canto com a Parker, foi aberta quando Alicinha, “minha flor de maracujá com mel”, girou pontualmente os calcanhares na soleira.
No fim da manhã, o zum-zum-zum corrente na cidade já era um só, com o típico resultado da transmissão oral popular; Robélio da Mufunfa, ou Jeremy Irons, havia previsto a sua morte para aquele dia. A dúvida, dona Cartuxa não sabia dizer ao certo, é se a morte se daria às doze badaladas do meio do dia ou na sexta da tarde, em ponto, como Darcizinha da Casa das Meias assegurava. “Mas de hoje não passa!”, garantia solenemente Antenor Pacheco, o Coronel Pachecão, recém chegado da Fazenda Olhos d´Água.
E o meio dia passou, com vários conhecidos e anônimos de sentinela no bar.
As duas da tarde, Clorindo Ivan, o cabo Clô, chegou com os praças Adhemar e Juvenal, “pois tudo na vida, ainda mais a morte, carece de ordem e respeito, ora sô!”
Robélio continuava estático, rigorosamente imóvel, girando apenas os seus 960 réis de prata, única herança materna que ele herdara. Seu olhar era vago, de soslaio à emboscada da vida – ou da morte? – garantiam todos.
O meio da tarde encontrou o comércio da localidade literalmente fechado.
Ninguém queria perder o acontecimento. Até Chicão de Deodara, o último que lhe dera um pranchaço pelo atrevimento à Dorinha, fungou resignado: “Não, tão mau o cabra realmente não era...”, para o assentimento unânime do círculo mais próximo.
Dona Maria não dava conta dos quitutes e gasosas que vendia. A pinga, estava proibida por ela mesmo. Até Celoni viera lhe ajudar. Joãozinho, filho da Universinda, aproveitava o movimento e, mesmo sob o olhar reprovador e concorrente da dona do boteco, vendia rapaduras mal esfriadas do fogão da mãe.
As cinco e trinta em ponto chegou o padre Ezequiel, com sua bengala de camboim:
“Meu povo, que circo deprimente. Vocês não vão tomar tenência? Ninguém mais teme a Deus nesta cidade?”
Olhos baixos, alguns até envergonhados, o povaredo não cabia mais no salão, na varanda fronteira e no terreiro dos fundos, mesmo coma garoa insistente.
Foi aí – e todos concordam – que tudo começou a acontecer.
Robélio foi se levantando lentamente. A sua fatiota amassada lhe caía muito bem. Os ombros foram adquirindo altivez e os pulmões se foram a pleno:
“ Minha gente, está chegando a minha hora, a minha vez, e eu não quero me alongar...”
O mais auditivo dos viventes pode então, claramente, escutar cinco zumbidos de cinco moscas, uma esquadrilha a interferir com o assombro do silêncio.
“Me perdoem, por favor...Nada quis fazer de mal a ninguém. Dona Célia, aí no canto escondida: cuide bem de seu Vavá. Se ele é ruim de cama, é bom de mesa garantida, sempre farta, como vossos generosos culotes o provam...”
“Valdívio: aqueles cinco contos que me deves, pode esquecer, não vou precisar mais. Fonsinho, Fonsinho velho de guerra: minha bicuda é tua, vai, pega, e nunca mais tira da cintura. Padre, perdão por tudo. Deus me entende!”
“Não blasfeme, corrupião de satanás!” ruborizou-se o religioso.
“Ondina, os versos que não terminei um dia, ainda sussurrarei nos seus sonhos...”
“Ohhhh!”, geral. Até Ondina?
“People of my heart, como se diria na boa e velha Dublin, me tenham como sempre eu no fundo fui: um amigo, um apaixonado por este delicioso mundão de Deus e por todos vocês!”
O choro de Maria não pode mais ser contido e a velha garçonete e cozinheira dos sertanejos disparou cozinha adentro, único reduto ainda não definitivamente invadido, protegido que estava pela longa colher de pau da nega Leocádia.
“Minha hora chegou e meu dever com a providência não pode mais ser postergado! Um Homem não o é por nascença divina, mas por opção humana e eu não lhes falharei neste momento. Queiram-me de braços abertos, valhalas das alturas, que eu vou partir!”
Silêncio.
Silêncio por um minuto.
Silêncio por dois minutos.
Silêncio por cinco minutos.
Robélio estava em transe, olhos fechados, uma estátua.
Mais um pouco e os olhos da platéia, esbugalhados, já eram acompanhados de muxoxos variados.
Alfredinho não se conteve:
“Cumé, cabra: vai ou não vai?”
Foi neste instante que a Serra de Ibiacanga assistiu ao maior corisco que São Pedro já havia produzido. O raio, riscou, de fora a fora, o zinco enferrujado do botequim.
Foi um tal de salta pra cá, pula de lá, passa por cima, cai por baixo, que quando tudo serenou pouco restava do estabelecimento tradicional.
Por milagre divino – tanto que até romaria virou – todos escaparam razoavelmente ilesos.
Todos menos um.
Quando tudo definitivamente sentou poeira e os pedriscos pararam de rolar na rua, as dezenas de pares de olhos restantes se fixaram no bardo: Robélio Macedo estava estendido no cimento alisado, de barriga para cima e sorriso muito tranqüilo. Seu cheiro lembrava o de um porco sapecado, misturado com o de perfume Acqua Velva. E, não deixava de ser o homem bonito que sempre fora.
Antes que a consternação atingisse a todos e o choro a muitas, o padre sentenciou:
“Pediu, levou. Deus não protege os blasfemos e sacripantas. Que a ira divina sirva de exemplo a todos vós. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém!”
“Amém!”, responderam todos.
E, no dia seguinte, o agreste floriu-se de forma nunca vista, mesmo pelos mais antigos.
A chuva já havia terminado e a procissão subia a ladeira do Municipal em seus trajes mais finos.
“Não é todo dia que morre um assim”, disse o Esperidião da farmácia.
E aquele sábado no Engenho Grande será para todo o sempre lembrado como o dia do enterro do Robélio, um dia após sua morte, trinta e quatro anos e cento e vinte e cinco dias depois do seu nascimento.
E, como praga de gafanhoto,o que se viu nos meses que sucederam aquele fato, foi uma formidável guerra coletiva conjugal, que acabou com a tradicional família local, e uma debandada das colegiais de seus afazeres culturais.
Por isto, diz-se agora naquelas bandas, “nada do que foi, será, de novo do jeito que já foi um dia...” como dizia a música lá do sul.

domingo, 2 de setembro de 2007

Curiosidade mata!

Amigas e amigos:
Curiosidade mata. E eu não posso perder o meu emprego no jornal.
Por isto, as top ten serão divulgadas só na quarta-feira.
Lamento, e continue freqüentando este espaço